quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Essa é a tarceira parte de meu relato, que muda e se reverte; agora partimos para a Capadócia, terra de magia e montanhas surreais, deuses esquecidos e igrejas escavadas nas rochas douradas, entre fendas e vales.



Saimos á noite eu e Rodrigo, após alguns dias em Istambul, através de uma agência de viagem chamada WalkAbout, onde fechamos o pacote com hospedagem, almoço, transporte e o mais importante, o passeio de balão, de maneira que não precisamos nos preocupar em chegar lá arriscando perder o que mais queriamos; eram quase 10 horas de viagem de ônibus até Goremne, principal cidade da região, onde teriamos um hotel dentro das cavernas e montanhas. O ônibus não tinha ar condicionado e pior, nem banheiro; a cada hora faziamos uma parada, e a noite a temperatura na região batia no zero; cansados, nos retorciamos nas poltronas tentanto dormir, o que raramente conseguimos; enfim, já eram oito da manhã quando chegamos na cidade, totalmente destruídos ; pra piorar o apartamento só ficaria pronto depois das 10...mas estava na Capadócia, e nada disso realmente importava; aqui era o coração da Anatólia, onde está a maior parte da Turquia, terra mística onde os primeiros dias do Cristianismo floresceram no oriente, por onde marcharam Impérios como o hitita, Persa, Macedônio, o Romano e por fim os Turcos Sedjucidas e Otomanos, que pouco a pouco ocuparam toda a região, mudando para sempre sua fé e cultura;  onde antes era local sagrado dos Bizantinos cristãos gradualmente  se Islamizou; no entanto, muitas antigas igrejas e monastérios encravados nas rochas resistiram ao tempo, sendo hoje considerados patrimônio da humanidade;




As montanhas de formas curvas, constrastavam com o céu de um azul intenso e luminoso, banhando os vales de cuja grama dourada provinha um aroma seco e forte; terra antiga a Kapatuka, terra dos belos cavalos em Persa, essa vastidão abstrata cujos limites nunca foram claramente estabelecidos; ali tudo era de uma beleza mística, o vento percorria solitário suas chaminés de fadas, curvas e corpos convidativos, montanhas sensuais cuja mão do acaso e da paciência deram formas sutis e majestosas, pedras de lua, brancos véus, mudando e se desfazendo; nas suas áridas vastidões São Paulo caminhou levando a luz e o sermão de outras montanhas, sabedoria imortal de palavras transcendentes; ali percorreu os vales com sua fé e seu verbo, falando de novas eras e futuros de igualdade e justiça. Nasceu, combateu e morreu Giorgios, Jorge, São Jorge, Santo e lenda que sentou praça com suas armas e cavalarias, e todos ainda hoje lhe rogam serem parte de sua companhia, rogam que vençam os dragões da maldade e do mundo, épico antigo recantando pelas eras que move corações e crenças da Etiópia a Londres, dos terreiros da Bahia onde é conhecido como Ogum, das letras de Ben Jor, de tantos outros. É dessa mistica e antiga Capadócia que surgem as lendas, nos mosáicos milenares e gastos de velhas igrejas, nas casas onde eremitas se isolavam buscando o transcendete, nas pinturas rústicas e nos velhos evangelhos, tudo aqui emana energias de fé e transcendência...






Talvez só a Chapada Diamantina, e não sei porque me arrisco a comparar,  rivalize em beleza e mistério com essa terra; a mesma aridez plena de vida, as belezas brutas da pedra exposta, o silêncio sereno de sua natureza, as formas delgadas e sutís traduzindo-se em pássaros, camelos e corpos, brincando com nossa mais profunda imaginação. São como nuvens que mudam e alteram a forma, surpreendem...rude arquitetura moldada pelo tempo, com seus arcos e abóbadas esculpidos, puras mãos e forças de vontade humanas a procura do divino; aqui é impossível distinguir onde começa a marca do homem e termina a da natureza, tão unidos estavam esses dois elementos agora tão díspares.







Balões:

Despertamos antes das 4; o frio açoitava a pele, e por mais roupas que usássemos não havia como se proteger da noite no deserto. A sensação térmica já estava abaixo de zero e eu não sentia mais a ponta dos dedos. Uma luz pálida e amarelada iluminava a rua onde cães brigavam por pedaços de carne e restos de construção se acumulavam. Na minha esquerda, estranhei tantas abóboras jogadas no chão, como lixo. Meu guia me explica que ali eles aproveitam as sementes que são valiosas no mercado, e jogam fora o fruto;   lhe digo que no Brasil nós comemos as abóboras e não jogamos fora, mas as sementes sim.Imagino que talvez desperdicemos outras coisas e não nos damos conta; esqueço isso quando chega a van com o nome da agência e dentro dela um Turco sorridente nos acena para que entrássemos. A noite fria ficava para trás e o aquecedor nos fez dormir até o local onde os diversos comboios se encontram. Comemos e vimos que a maioria das pessoas era da terceira idade. Brinco com meu amigo que iremos bem acompanhados pelas senhoras de mais de 70 anos que tomam chá ao nosso lado, assim como as dezenas de Japoneses presentes em todo ponto turístico que se preze, com suas lentes e câmeras fazendo minha máquina se encolher de vergonha...enfim, outra vez na van e então chegamos. Nosso condutor se apresentou, Carlos Francisco, espanhol que há 6 anos vivia lá. olhei enquanto muitos homens tentava insuflar o gás, e a chama intensa iluminava nossos rostos....no horizonte o azul denso da noite foi cedendo, e ao longe vinha o ar frio chamando a manhã.
Enfim, voaríamos.  





Locais de interesse para o viajante (falarei de algumas delas mais adiante)


-Museu ao ar livre de Goreme
-Peribacalar Vadisi (vale das chaminés de fadas)
-Vale de Zelve
-Vale de Songali
-Vale de Ihlara
-Cidades subterrâneas de Derinkuyu Ozkonak

segunda-feira, 14 de novembro de 2011


Direto da revista Bravo!

Outra Babel

“Istambul”, de Orhan Pamuk


Há escritores que no rosto envelhecido trazem nas rugas a genealogia secreta dos pais, no olhar melancólico certo desenho cartográfico da infância, e no sorriso a gratidão pelo talento que tornou reabitáveis as fantasias perdidas do segundo mundo que todos parecem abandonar quando chega a nefasta maturidade. Orhan Pamuk é um desses escritores. Seus livros têm o mesmo familiar gosto manancial, alimentam-se desse primeiro sal da terra de sua meninice e juventude; a prosa emana intimidade e a Turquia lhe parece sempre uma grande família, mesmo que disfuncional. Todo país cabe no pórtico que é a imaginação de um grande criador, ainda que ele escreva sobre as mesmas ruas e gente. E Orhan não precisaria de um Nobel para ser reconhecido como tal, como o grande escritor que é: fica muito evidente após a leitura de Meu nome é vermelho, A vida nova O Livro Negro que Pamuk mais prestigia a academia sueca do que foi por ela prestigiado. É um romancista criativo e ambicioso, com livros plurais e de larga e potente duração, onde realidade social se funde com mitologia, onde a banalidade está casada com o sublime; e que possuem sabedoria, pertinência e, mais raro, uma generosidade ingênua e afetuosa. Todos esses elementos encontram-se misturados na graciosa prosa desse Istambul – Memória e cidade.
A primeira originalidade de Istambul está na ausência de trama, de um enredo discernível. Como as memórias de um escritor, não há um encaminhamento preciso de uma arqueologia vocacional – ao contrário, o leitor crê na pintura levando o menino Orhan mundo afora. Quando comparadas às memórias de Nabokov ou García Márquez, em Istambul escapa aquele reconhecível elemento de fatalidade que levará o narrador da memória a ser um narrador de vidas falsas. O que se tem é um jovem que não sabe o que quer num país que não sabe o que é. Justamente por faltar esse elemento de fatalidade, e por ser sincero em relação à descoberta dessa vocação tardia que lhe traria a felicidade de exercer seu verdadeiro talento, os anos de juventude de Orhan são os anos de observação contemplativa da cidade, contaminadas pelo olhar do pintor que não chegou a ser. Nascido em uma família abastada, de tendências seculares e com o desejo ocidental (diria até o ressentimento ao oriental), a Istambul de toda gente acaba por ser um cenário estrangeiro – Orhan é rico num país miserável; ateu numa população religiosa; transnacional numa sociedade nacionalista. Os olhos do menino Orhan vêem seu mundo com olhos alheios – seu pertencimento é conquistado, e a Istambul que vai tomando para sua alma é captada mais pela imaginação. Repara naquilo que não é visto; relembra o que é desejo esquecer; identifica-se com os restos arcaicos existentes nas fissuras de uma modernização forçada. Ao ser o ocidental da Istambul que o cerca, acaba sendo o ocidental de si mesmo.
Outra originalidade das memórias de Pamuk é o avançar algo ensaístico por temas do mundo da cidade. Como a enciclopédia de curiosidades do seu admirado Koçu que tão alegremente descreve por longos trechos do livro, Istambul elege para muitos capítulos personagens que estiveram na cidade e que dela fizeram relatos, escrevendo mais por motivos musicais do que por uma seqüência narrativa. Nerval e Gautier; André Gide; o pintor Melling que parece ser a inspiração por trás do romance histórico Meu nome é vermelho; Flaubert e sua resistência à cidade, e de quem admite veladamente ter usado uma idéia de romance nunca escrito para criar seu próprio romance Castelo Branco. O que impressiona nos relatos de Pamuk dos ocidentais que visitaram a sua cidade é sua gratidão aos seus textos, que ele relaciona amenamente ao fato de que Istambul nunca foi colônia do ocidente. Não há rancor na aproximação de Pamuk aos relatos dos orientalistas que admira. São nesses relatos que ele encontra detalhes que a maioria dos autores turcos – seus cronistas e historiadores – e as autoridades turcas – no seu desejo de apagar qualquer traço que resista à ocidentalização artificial de sua cultura – relegaram ao esquecimento, mas que para Pamuk são essenciais ao entendimento da alma turca. Talvez por ser paria do ocidente, talvez por não ser definitivamente um oriental, Pamuk seja o porta-voz perfeito da impossibilidade dessa fusão. Um colecionador excêntrico como Koçu e Tampinar, mas alimentado pela mesma alma (e concepção romanesca) burguesa que movem autores como Sandor Marái e Thomas Mann.
A melancolia de Istambul é consciente de que não está no passado certas respostas sobre o futuro turco. O passado não soluciona nada. Não há em Pamuk o desejo de recuperar o tempo; ele o aponta de forma amorosa, mas parece saber que a Turquia foi mais pobre e ignorante antes, quando era menino. A Turquia que herdou, o país que decidiu se ocidentalizar da noite para o dia a partir de decretos, dessa Turquia Pamuk parece não sentir saudades. Seu livro é mais um elogio à gente da cidade e da forma como sobreviveram à miséria que via no conforto esterilizado de sua janela. É a crônica de uma identificação que será consumada quando o jovem Pamuk pega distraidamente uma barca que cruza o Bósforo e se identifica com a gente pobre que, na sua humildade, parece trazer uma Turquia mais verdadeira e profunda, uma Turquia alheia aos valores modernos, e que não se reconhece como a parte arcaica e indesejável de seu próprio país. É a descrição dessa gente que movimenta o capítulo mais bonito do livro, “A hüzüm”, com seu parágrafo de sete páginas descrevendo os anônimos da cidade; e é a compreensão dessa gente e paisagem humana que o jovem Orhan irá buscar nos anos em que se dedicará à pintura das ruas solitárias e do Bósforo ao por do sol. Sabendo que vive numa Istambul diferente, isolada, até certo ponto artificial, Pamuk irá tomar o restante da cidade pela imaginação. E aí está a maior surpresa do livro: o elogio à obra de quatro autores completamente desconhecidos – narradores da melancolia dessa Istambul que Pamuk deseja captar: o poeta Yahya Kemal, o historiador Ekrem Koçu, o memorialista Sinari Hisar e o romancista Hamdi Tampinar. Longe de se colocar como o autor vitorioso produzido num país provinciano (como é a postura de um VS Naipaul), Pamuk se coloca como um humilde tributário de uma genealogia de grandes textos que o precederam. Seja pelo elogio crítico, seja pela identificação da alma, é espantoso perceber que nessas memórias o já internacionalmente conhecido Pamuk deseja tão francamente pertencer mais ao panteão impenetrável da prateleira turca que à biblioteca internacional do ocidente.
Intercalando a intimidade da casa com o marulho das ruas, fartamente ilustrada com belíssimas fotos,Istambul é uma leitura envolvente, bastante divertida e erudita. Nela temos a descrição das barcas que ligam as partes européia e asiática da cidade; um trecho que narra estórias de suicídios; uma longa e entusiasmada narrativa do Bósforo e seus humores oceânicos; a contradição de ser ateu num país religioso; a dor estranha de ter um pai sempre ausente; disseca a vida dos ricos, suas festas e modo de gastar estupidamente seu dinheiro; comenta as hilárias confusões de família; os caprichos da matriarca; das salas que se tornam museus repletos de fotos e móveis antigos; da intromissão da TV na vida urbana; das ruínas otomanas que convivem com os prédios modernos; das lojas gregas; dos bairros judeus; dos incêndios das antigas mansões de madeira; das brigas intermináveis com seu irmão mais velho e da imensa tristeza de viver longe dele; dos passeios ao longo do Bósforo nas barcas com a mãe ou nos carros possantes americanos do tio; o primeiro amor, a pintura, a amizade, a decepção. Istambul é uma narrativa que se inscreve entre as grandes obras de memória do século passado, livros como A Pessoa em Questão, de Nabokov, Um caminho no mundo, de VS Naipaul,Memórias de um burguês, de Marái, As Palavras, de Sartre, ou a maravilhosa trilogia de Canetti (clássico que merece uma reedição urgente). O único porém do livro Istambul é que termina justamente no dia em que Pamuk decide que se tornará escritor; no entanto, com uma continuação já prometida pelo próprio Pamuk, esse vácuo será em alguns anos devida e felizmente preenchido. E a outra mágica, a da transformação da experiência em ficção, da realidade numa segunda realidade, e que talvez seja a única real ausência que o leitor ansioso encontrará em Istambul, terá afinal seus bastidores revelados.

domingo, 6 de novembro de 2011

PRIMEIRO DIAS

Sugestão para escutar enquanto leem:

http://www.youtube.com/watch?v=oF9wOKi4ZSM

Ohmar Pamuk, o premio Nobel turco conta que, quando menino em certa ocasião tiveram ele e seu irmão uma crise de tosse. Quando foram ao medico, este recomendou que fossem sempre dar uma volta pelo Bósforo  e sua orla, para que respirassem ar puro. Foi assim que, segundo ele, a a palavra Bósforo, que no antigo Turco significava garganta se uniu em sua mente a idéia de sair e tomar um ar. Sentado no bar do meu albergue e mirando as belas cúpulas douradas e minaretes de Hagia Sophia me lembro desse trecho do livro " Cidades e recuerdos" que li antes de viajar. Já era meio de tarde e ela se iluminava de maneira única no horizonte, suas formas surreais escorriam diante de meus olhos impressionados...sim, a quem nao faria bem ver o Bósforo, e para além dele essa cidade imensa de três nomes gloriosos? Istambul, Constatinopla, Bizâncio, Capital Europeia da cultura em 2010, e se perguntar a qualquer turco, capital mundial da cultura, esses que sao nacionalistas até a alma.

Flaubert disse há mais de um século e meio atrás que esta seria a capital do mundo 100 anos adiante de seu tempo. Calculou mal o pai de Madame Bovary, mas ninguém poderia dizer que se equivocou; Napoleão mesmo disse que se houvesse um único estado governando o mundo, o centro seria Istambul...delirios de grandeza de Imperadores sempre fizeram parte da alma dessa cidade que separa a Ásia da Europa.

Por tudo isso que é um lugar tao cheio de vidas, histórias e mistérios, ideal para caminhar e perder-se, mas também para se sentar, tomar um pouco do chá negro que em todos os lugares lhe serao oferecidos (aceite sempre) ou o chá de maçã, que segundo um vendedor de tapetes me disse, é dado aos turistas por ser mais barato, não sendo realmente algo tipico do pais (me lembrei da Bahia nessa hora e seu hábito de fazer folclore em cima de coisas que costumam ser típicas, como aquelas baianas de acarajé em cerimônias e recepção de eventos, aquela cafonice toda) mas ainda assim muito bom de experimentar, ou parar para refletir sobre a vida em um dos diversos cafés no centro da cidade, olhar os homens vestidos com túnicas bebendo café e jogando xadrez, fumando tabaco doce nos narguilés coloridos, as mulheres mais conservadores passando cobertas pelos véus...vale a pena olhar e aprender com tudo isso.



Ponte de ida e volta de culturas distintas, sua memória guarda quase tudo; capital da Trácia no período Grego, segunda cidade do Império Romano, coração do Império Otomano e megalópole fascinante do sec. XX...após ter viajado tanto e por tantas cidades da Europa, arrisco a dizer que todas elas ao final se parecem; são rios, castelos, museus e igrejas, praças com monumentos equestres e palácios oficiais...mas Istambul não. Tudo aqui é de uma heterogeneidade  incrível. Dos intricados mosáicos na Igreja de São Salvador e Chora a majestade Otomana do Palácio Topkapi, do mistério que evoca as cúpulas da Mesquita de Sultanahmet e dos casarios de marquises trabalhadas com desenhos intricados, ou  o caos labirintico do Gran Bazar, com suas mais de 4000 lojas vendendo de tudo, ao calçadão do bairro ocidental de Beyoglu.

[plano+estambul.jpg]

Caminhamos pelas ruas e um vento frio sopra nesse outono; assim como tantos estrangeiros a idéia que tinha era de deserto, calor e exotismo na Turquia, estereótipo ocidental sobre o Islã, estereótipo este que muitas vezes se confirma e surpreende (como de minha viagem ao Marrocos) mas que não se aplica a essa sociedade Laica onde as mulheres tem direito a voto e igualdade, a religião nao ofende o estado apesar das tensões existentes, e nao se proibe o alcool, sendo inclusive muito conhecida a cerveja Efes.



Descemos as colinas de Sultanahmet em direçao ao EMINONU, ponto nelvrálgico da cidade antiga; ali, nas margens do Chifre de Ouro convergem a Ponte de Gálata, a Mesquita Nova, o Bazar das Especiarias e a estação do lendário Expresso Oriente, além do movimentado sistema de Ferry Boat que ligam as partes europeias e asiáticas para além do Bósforo, na entrada do Mar Negro; é a Time Square de Istambul ou a Picadilly Circus Londrina, nossa Cidade Baixa com aquele encontro diverso de conexões urbanas e pessoas de diferentes partes da cidade; é a região mais tradicional de Istambul, mais auténtica; sentei em uma das diversas tendas e comi um Balik Ekmeli feito nas barcas luminosas as margens d`água, uma especie de sanduiche de peixe pescado na hora e feito na braza com verduras, enquanto tomava um suco feito de romãs, que aqui é mais famosa do que qualquer outro suco ou refrigerante.
Do outro lado olhava a ponte sobre a qual pessoas pescavam tranquilas em meio ao ruido e movimento da metrópole, alheios ao tempo.












O que vi e vivi:


HAGIA SOPHIA / AYA SOFYA

O céu é dourado e azul, estrelado em paraisos medievais; o rei é o Deus, Imperator Pantocrator do oriente, extático mosaico de peças a fitar sobre abóbodas elípticas e cúpulas de sonhos que jamais cessam ou cansam o olhar...os serafins sem face, a mãe eterna a sofrer com o redentor nos braços, sempre, os olhos de um fulgor bizantino a sorverem com censura e piedade as almas cristãs daquele século 5, e ainda hoje 21. A mesma mão que derrubou reinos e glorificou santos ergue a mais bela igreja da cristandade, a mais bela mesquita dos submissos, e naquela curva do mundo tudo é uma só e mesma coisa ao mesmo tempo a mesma coisa; tudo e Alá ou Jeová ou A tua presença, tudo se funde e se agrega e de repente agora vejo minaretes em direçao aos céus acompanhando aquelas cúpulas erguidas sobre retas por Antemio de Tralles e Isidoro de Mileto, e onde eram rostos agora são flores e ideogramas do deserto; é uma fé aquela outra fé que ao final é a mesma, e somos todos pequenos e grandes sob o ouro celestial de Hagia Sofia.






PALÁCIO TOPKAPI

Nas noites incansáveis dos Haréns de mil mulheres, de sangue e conspiraçoes, entre edificios monumentais rodeados por pátios erguidos pelo conquistador Mehmet II, misturam-se histórias, corredores e saloes secretos...escravos negros eram trazidos de terras distantes para serem Eunucos nos haréns, eslavas de pele e olhos claros eram escravizadas e levadas para servirem ao Sultao.
Mas ali também repousa algumas das maiores relíquias do Isla como o manto do profeta Maomé, fios de sua barba, espadas e diamantes, sangue e fé moldaram esse povo de cavaleiros das estepes sob cuja fúria guerreira colocaram toda a Arábia e oriente Médio.






A CIDADE E OS GATOS

Por onde passo gatos, gatos gordos e negros em antigos capitéis, nas ruinas bizantinas, nas estátuas de olhar languido dos tempos Helênicos...os gatos aqui proliferam e exaltam a mistica de Istambul, assim como os caes em Athenas...guardam a cidade em suas noites silenciosas, guardam as memórias e os feitos esquecidos do homens. Aqui sao eles os senhores da cidade.



Adendo: Me desculpem a falta de acentos em algumas palavras, mas aqui o teclado é outro e me falta paciencia para a essa hora descobrir como se corrige tudo isso...assim que puder refaço a ortografia.

domingo, 30 de outubro de 2011

Viagem ao Oriente

Sobrevoando o Mediterrâneo, 20.10.11

Saio de Barajas, terminal 4 em Madri, cansado e carregando as marcas dos últimos dias, rumo a Istanbul, a jóia do oriente. O avião chacoalha frágil enquanto cruzamos a Europa de oeste a leste; da minha janela vejo o mediterrâneo e seu azul luminoso, 2.900 km forjadas em ouro e guerra, e mais ainda as separam a língua, a fé e a história.

A bela Bizâncio de minaretes esguios almejando os céus sempre ocupou meu imaginário, o grande portal da Ásia, encruzilhada de mares, curva de civilizações. Também nasci na confluência civilizatória de vários povos; também nasci em um porto nos confins de uma terra estranha, rota de navios, mercadorias e escravos.
Istanbul, Constantinopla, Bizâncio, capital de impérios e lendas me espera com seus sons, seus perfumes e sua fé.

Istanbul será minha esses dias.

Tento dormir e não consigo. Horas se passam e aos meus pés vejo a Grécia e seus montes escarpados, suas ilhas vulcânicas e solo árido. Outra viagem em breve, penso enquanto o Mar Egeu vai se desfazendo e aos poucos vejo o grande estreito sobre o qual se assenta a maior cidade da turquia;

Do aeroporto Mustafá Kemal Attaturk tenho a primeira impressão real do país;
A língua completamente estranha ao ocidente, apesar do alfabeto latino, me desconcerta; pergunto em inglês a uma atendente como chegar no meu hostel no centro da cidade, e ela responde com um sotaque indecifrável, apontando o dedo para a estação em que devo descer. Abre um enorme mapa e então vejo o quão grande é essa metropole de quase 20 milhões
de almas. Risco com a caneta que ela me empresta o ponto indicado e sem perceber a levo comigo.
Por onde passo fotos e pinturas de Mustafá Kemal me seguem.
Esse nome marcará minha viagem pelos próximos dias, esse que é o grande pai do povo turco, o lider fundador da pátria após o fim do império Otomano, guerreiro político reformador e quase um deus para esse povo; enquanto s demais mulçumanos canalizam seu radicalismo para a fé, os Turcos o exprimem através de seu nacionalismo beligerante.

busco o metrô e sigo a indicação do aeroporto...porém não encontro nenhuma casa de câmbio para trocar meus Euros por Liras, e preciso voltar para o portão de desembarque; porém, para minha surpresa todos os acessos do aeroporto são estritamente controlados por detectores de metal; isso não apenas no aeroporto, mas também nos shoppings centers, museus...entendo que estou em um país não tão pacífico e seguro. Sou revistado outra vez, apesar de dizer qual a minha intenção. enfim, volto, troco meu dinheiro e pego o metrô.

Horas se passam quando chego em Sultanahmet, o centro histórico e cultural de Istanbul. Aqui, onde havia o antigo palácio Real de Bizâncio estão dois dos mais incríveis monumentos da humanidade; a igreja/mesquita/museu de Hagia Sofia, e a Mesquita Azul...seus minaretes majestosos alçam os céus em um sinal de fé, sua beleza dourada resplandece, 1400 anos de história e grandeza se erguem diante de mim. Penso nos primórdios do cristianismo, nas lutas inicias, nas perseguições; penso em Constantino e naquela período de decadência do império do ocidente; a história é contada de frente pra trás, e no entanto imagino que aqueles homens e mulheres jamais perceberam que viviam o estertor civilizatório de uma era, que tudo se acabava ali, e aquela igreja era o simbolo desse novo início.















Caminho em direção ao meu albergue. As ruas com cheiro de tabaco e especiarias exóticas evocam antigos sonhos de sultões e haréns, a fumaça espessa dos vapores nos banhos turcos relaxa e entorpece a mente; mistérios, mistérios se ocultam naquelas vielas estreitas, naqueles olhos negros e rosto marcado das mulheres e homens que passam, o nariz aquilino e proeminente, os cabelos escuros; diferentes dos espanhóis com suas caras grandes e ovaladas, olhos redondos e lânguidos, deselegantes no vestir e no trato, os turcos são um povo de cavalheiros que ainda usam bigodes a moda antiga, se vestem com sobriedade e estão sempre de barba aparada e cabelos arrumados; as mulheres tingem-se de loiro como fazem as Brasileiras depois dos 40 (e cada vez mais cedo) e ao menos as que vi no aeroporto são extremamente bonitas; mais tarde percebo que na parte histórica poucas trabalham nas lojas e comércio, e as vezes há apenas homens atendendo.

Chego no albergue, e encontro com Rodrigo, amigo meu que veio de outras viagens e lugares; havia percorrido a Europa, depois Canadá e Estados Unidos e então voou para a Turquia...parecia cansado, mais até do que eu. Fiquei feliz de encontrar alguem conhecido após os dias em Madrid...passei os últimos 3 dias na capital Espanhola by myself, sozinho, vendo a loucura e o desenrolar daquela cidade.

Istanbul inteira está tomada pelas cores da bandeira nacional turca, em todas as casas, varandas e ruas o vermelho intenso do crescente islâmico com a estrela se destaca; Haverá o feriado da fundação da república no dia 30 de outubro, e como disse, esse povo é extremamente nacionalista. fotos de Mustafá Kemal proliferam por todos os locais, em estações, shoppings, padarias, praças...esse mito nacional, grande lider e reformador levou a turquia do atraso do sec. XV a modernidade da sociedade ocidental do sec. XX em pouco mais de uma década, abolindo antigos costumes e tradições, dando direito as mulheres de votar, de não usarem véu, modernizando a sociedade, alterando o alfabeto, enfim, foi a um só tempo um JK, um Getúlio Vargas e um lider capaz de fazer algo que nenhum dos nossos ainda conseguiu; reformar a alma de um povo, civilizar seus costumes e hábitos...está pra nascer aquele que vai trazer pro sec. XXI a coletividade Brasileira e seus atavismos coloniais, seu ranço clientelista e adesista, sua negação ao debate e as discordâncias de idéias, enfim, expurgar o que temso de pior e reformar as legislações, esse grande desafio maior do que qualquer estrada ou ferrovia, reformar uma sociedade.




















Paramos diante de uma antiga casa da madeira , tao comum em Istanbul, chamada por eles de Yallis. Olho outra vez os simbolos da bandeira. Me lembro do céu da Bahia que em noite de lua crescente é exatamente igual; me lembro de outras luas, estrelas e canções...parece que fazem meses que sai de casa.




sexta-feira, 28 de outubro de 2011


Seis meses no mundo...

Daqui de cima a Baía me parece distante e pequena, as pessoas passam em seus idiomas indecifráveis, outras Babéis, Outras Palavras.
Daqui, terra prometida da civilização ocidental, meninos ateiam fogo em bandeiras, velhos se movem entre Ramblas e jardins, outonos chegam sem aviso e invernos amedrontam meu coração baiano com promessas de fumaça e frio.

Sou um estrangeiro nesse velho e continente mundo,
e naquela outra cidade com suas ruas e historias.

E tambem sou dela.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Falando de Mitos


















Desde a aurora da civilização os homens sonham; sonham com terras planas cercadas por oceanos sem fim onde dormem serpentes antigas; Sonham plantas e espíritos que lhes contam do mundo antes do tempo presente, quando deuses caminhavam sobre a terra e heróis primevos cruzavam desertos de areias negras a procura da imortalidade.
Os grandes épicos e lendas da humanidade surgiram de feitos esplendorosos, de paixões capazes de movimentar exercitos, atravessar oceanos e derrubar muralhas.
Herácles, Heitor, Aquiles, Sigurd, Gilgamesh...o arquetípo do herói guerreiro civilizador matador de dragões, fundador de cidades e povos surgia no alvorecer da consciência, como um impulso canalizador do nosso anseio em dobrar a natureza, cruzar seus rios e desbravar florestas.
Sou de uma cidade na qual a despeito de viver na secularidade e nem mesmo compartilhar de determinadas crenças, não consigo esquecer que ainda cultua em diversos locais os mesmos ritos arquetípicos dos Gregos nos tempos homéricos, ou dos chamados pagãos da Gália...padrões antigos e maravilhosos que se amontoam em narrativas fantásticas de deuses e espíritos da natureza, rituais e sacrifícios capazes de fascinar e despertar na nossa alma de europeus desterrados antigas sensações.
Jung explica, diriam alguns, pois em Freud a mente apavora o que ainda não é mesmo velho. Coisas da vida.
Os mitos persistem apesar da mitomania de dizerem ser histórias de crianças, ou invenções pseudo reais...a cultura atual bebe deles como um viciado, a exemplo de tudo o que vemos no cinema, de John Wayne a Tarantino, Titanics ou Shreks.
(a TV de certo modo é muito rudimentar para fazer valer a dimensão mítica. Ela arrisca até o ponto do conto de fadas, que julga mais palatável, e parace se frustrar).
Mas quando vamos para a literatura Brasileira, na qual não me arrisco a criticar ou fazer elegias (não elogios)nos deparamos com um deserto de homens e idéias nos ramos da ficção fantástica , nas histórias e aventuras míticas e subcriações.
Há uma grande literatura infanto-juvenil, há uma enorme literatura "adulta" (me perdoem por essa definição deficiente) mas falta entre essas duas vertentes o simples e maravilhoso mundo da imaginação fantástica.
Segundo Christhoper Vogler em seu livro A Jornada do Escritor, os Americanos do norte discernem o autor (auctor) do escritor (writer); o primeiro almeja a originalidade da língua, a ousadia estilística, a revolução dos ismos. O segundo é aquele que gosta de contar histórias...faltam então esses por aqui, ou melhor
falta a oportunidade para todos aqueles que não almejam nem pretendem ser os novos Machados de Assis, os Guimarães e Clarisses.
Apenas querem entreter e contar histórias que emocionam e fascinam sem a ambição da eternidade (ou um pijama lustroso de imortal. A esse já bastam os Sarneys.)

E se falo de histórias míticas, de criaçòes e divindades, é impossível me esquivar daquela que Tolkien definiu como "a maior de todas as histórias";
Tudo ali é perfeito em sua cadencia narrativa, atraindo e emocionando até a catarse final. As vezes penso que a grande narrativa canônica (porque existem maravilhosas histórias que os apedeutas relegaram a um esquecimento) dos quatro evangelistas parece ter sido tecida por um só autor; o nascimento maravilhoso, a infancia, a jornada ao redor daquele mundo trazendo uma nova idéia...a morte dolorosa e por fim,
o retorno e a confirmação de uma vida nova sobre o velho mundo, capaz de influir por tantos e tantos séculos, como apenas as grandes histórias são capazes.
Tolkien eleva os evangelhos e defende sua idéia de subcriação do mundo como um gozo dado pela divindade ao homem. Suas palavras:

"é tão grande a generosidade com que foi tratado (o homem por Deus) que talvez agora possa, razoalvemente ousar imaginar que na fantasia ele poderá auxiliar o desfolhamento e múltiplo enriquecimento da criação. todas as histórias poderão tornar-se verdade..."

Não posso deixar de dizer que por muito tempo sentia erroneamente como Brasileiro a falta de um fundo mitológico cultural pré-existente, até que entendi como Baiano ter tudo isso junto aqui mesmo, ou a possibilidade de ouvir as primeiras histórias contadas a beira do fogo pelos guerreiros negros de Benguela e Igbó, os olhos faiscantes ao falar de deuses e heróis que mais tarde encontraremos paralelo graças ao inconsciente coletivo na herança do panteões clássicos de nosso ramo Romano-Lusitano, e se mesclam a cultura Nórdica-Americana das velhas sagas transformadas em seres dos quadrinhos, dos filmes, da cultura pop...os mitos vivem, e em meio dessa sociedade cujos filhos cresceram sendo cobrados a terem pragmatismo, reduzindo-se em um racionalismo estéril e repetitivo típico dos Latinos (não sou eu quem digo isso, é Marie Louise von Franz, que sabe das coisas) penetram pelas frestas e cutucam as nossas almas secas de concretude, afim de que acordemos outra vez e começemos a sonhar para além das torres da cidade.

domingo, 28 de novembro de 2010

Rio de todos os Brasileiros.


Ao ver a operação das polícias, Forças Armadas, Marinha, Aeronáutica, e principalmente do agora heróico BOPE, não deixei de ver o gosto de revanche, de retomada civilizatória contra a barbárie em nossas periferias.
Vi na quarta pessoas em transe diante da tela, enquanto as câmeras mostravam traficantes correndo arrastando os feridos ao longo de uma estrada lamacenta, perseguidos pelos Capitães Nascimento de preto, como um Call of Duty em tempo real, ou um Counter Strike caboclo; Era a mesma catarse que todos sentiram ao ver Wagner Moura esmurrar o secretário corrupto, ou balear bandidos...os liberais dos direitos humanos, os intelectuais Europeizados, na ficção ou na real, todos se calam quando a situação chega aos extremos.
O Estado, essa lontra corrupta, lesa e gorda que só reage ou quando reage, até ser tarde demais ataca com tudo, e espero que ataque mais; com escolas, delegacias, jogando livros sobre as favelas, bombardeando com saneamento e urbanismo as vielas tortuosas e casas de tijolo aparente, dando grandes parques, praças, avenidas ao tecido marginalizado, inserindo-o ao resto da cidade. Já se passaram 40 anos desde que o Rio de Janeiro mergulhou em sua noite densa, cidade inimiga número um da ditadura militar, que fez o possível para destruir (e destruiu; o Palácio Monroe, sede do Senado Nacional quando lá era a capital da república, foi demolido sem nenhuma razão, apenas capricho) as conquistas da identidade do país naquela que ainda hoje é considerada a "Cidade de todos os Brasileiros.'
Fazem dez anos que vou ao Rio, e na primeira vez que, saindo da Bahia, conheci a “Cidade de todos os Brasileiros” me encantei; era linda, e me pareceu semelhante e maior que Salvador em termos humanos; aberta, quente, amistosa; confesso envergonhado que era o Rio de Manoel Carlos, muito mais do que o de Tom Jobim ou Ruy Castro, ou até mesmo do Estereótipo do Carnaval, que tinha a cabeça naquela época, com seus calçadões sinuosos, os imensos prédios brancos, volumosos em relação as lâminas esbeltas de minha cidade (culpa dos terrenos acanhados, descobri logo depois), cidade charmosa da Zona Sul, e me pareceu que a idéia de violência noticiada pela Globo e demais mídias fosse algo surreal e absurdo de acreditar;
Havia uma alegria desmedida naquela cidade, e o próprio Réveillon, onde milhares de, casais, pobres, turistas, gays, ricos estavam ali, na chuva e nos fogos, desmentia essa imagem; não me parecia que aquela era a mesma cidade dos 2.300 assassinatos do último ano.
Claro que o fato de termos uma das maiores emissoras de noticias do planeta em uma cidade faz dela o alvo de noticias; não a toa que a mesma isegurança na Bahia e Nordeste passam despercebidos pela mídia ao longo do ano, a não ser para mostrar datas e pessoas do estereótipo local.
Mas agora, após quase dez anos de idas e vindas ao Rio de Janeiro, percebo o transe surreal dessa cidade; assim como é a síntese cultural do país, assim como permanece a capital imaginária do que somos para o mundo, também ali coube se desenrolar de forma mais intensa e dramática a violência que assola todo o resto do Brasil, o contraste da riqueza, o caos humano.
Nos últimos 30 anos, estima-se que tenham morrido 1 MILHÃO de pessoas por assassinato no pais...perdemos uma Florianópolis + uma Aracaju em capital humano; foram artistas, engenheiros, médicos e até advogados que se foram; Não sei quando inventaram essa história de país pacífico, de povo pacífico...uma sociedade escravocrata por 400 anos não se ergue de forma pacífica; a violência nos é apresentada como algo de fora de nossa sociedade, como se os traficantes, os marginais, os seqüestradores fossem invasores externos surgidos do nada, ou como, já disse Caetano Veloso em seu livro Verdade Tropical, os intelectuais julgavam os militares e sua truculência criaturas extraterrenas que nada tinham a ver com o bom e mestiço povo que oprimiam...é engraçado ver que hoje nem a ditadura era de Marte, nem essa violência inteira é de Vênus. O Rio de Janeiro desde o início de sua história é uma cidade com surtos violentos; o que mudou foi o fato de ter chegado a uma escala desproporcional em que eles, como agora a sociedade Soteropolitana, que por mais de 20 anos achava viver na TERRA DA FELICIDADE, CAPITAL DA ALEGRIA, e todos os adjetivos ridículos, tem despertado para resolver, ou então sucumbir. Foi essa sociedade que historicamente criou um cenário para a manifestação desses monstros, e não estou dizendo que ela os gerou, o que soaria Maniqueísta.

Repostando

Após um ano e meio de muita maré e pouca ressaca, volto a publicar aqui.
Poucas palavras é para os que tem interesse da leitura, do entretenimento, pelas coisas da cidade e do que pode ocorrer entre um dia e outro de correria humana...

"Os homens passam mais tempo erguendo muros do que construindo pontes"

William Shakspeare...ou Éricles de Malhação.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

GENARO DE CARVALHO







Um esboço rápido entre uma lembrança e outra...

terça-feira, 28 de abril de 2009


"O gênero humano"
homenagem ao amigo aniversariante

quinta-feira, 23 de abril de 2009


O voo do artista


Um sol que é Deus,
uma estrela que voa. O deus que é homem,
Um bando de estrelas, o homem que é sol.
mariposas, borboletas. O universo que é céu,
que é seu e seu só.
O olho que é luz,
a luz que é carne
e osso
e pena e pio e luz.



Daniel Fonseca Fernandes
05/05/2009
Do amigo Daniel, inspirado pelo espaço atemporal.